2 de abril de 2026
A indústria brasileira de pneus começou 2026 em retração. Nos dois primeiros meses do ano, as vendas de pneus produzidos no país somaram 5,5 milhões de unidades, uma queda de 10,6% em relação ao mesmo período de 2025, quando o volume havia atingido 6,1 milhões.
O desempenho negativo reforça um cenário que já vinha sendo sinalizado pelo setor e que agora ganha contornos mais preocupantes: a pressão crescente das importações, especialmente de países asiáticos, sobre a indústria nacional.
Mais do que um recuo pontual, os números indicam um enfraquecimento consistente do mercado doméstico. Considerando uma base histórica mais ampla, o volume registrado no primeiro bimestre é o menor desde 2019, acumulando uma retração de 27,5% na comparação com aquele período.
A retração não ficou concentrada em um único canal. O mercado de reposição, que tradicionalmente sustenta grande parte das vendas do setor, registrou queda de 10,1% no bimestre. Já o segmento de fornecimento para montadoras recuou ainda mais, com baixa de 11,5%, passando de 2,1 milhões para 1,9 milhão de unidades.
Esse movimento combinado revela uma desaceleração ampla, que impacta tanto o consumo quanto a produção industrial.
Entre os segmentos, os pneus de carga foram os mais afetados, com queda de 14,9% nas vendas. Já os pneus de passeio apresentaram recuo de 9,8%, enquanto o segmento de motocicletas se manteve estável no período.
O desempenho dos pneus de carga chama atenção por sua relevância estratégica. Trata-se de um segmento diretamente ligado à atividade econômica, ao transporte de mercadorias e à dinâmica logística do país — o que reforça o sinal de alerta sobre o momento do setor.
Outro indicador que preocupa é a perda de espaço da produção nacional. O market share dos pneus fabricados no Brasil caiu para 31% no primeiro bimestre de 2026.
No mesmo período de 2025, essa participação era de 41%. Em 2021, chegava a 63%.
A trajetória descendente evidencia o avanço dos importados e reforça o argumento das entidades do setor sobre a existência de uma concorrência considerada desleal.
Diante do cenário, a Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (ANIP) intensificou a mobilização institucional.
No início de março, a entidade encaminhou ao Governo Federal um manifesto com propostas para reequilibrar o mercado, que já reúne o apoio de 40 entidades ligadas à cadeia produtiva — incluindo a Associação Brasileira de Reforma de Pneus (ABR), além de representantes da indústria, do setor de borracha, cooperativas e entidades empresariais.
Entre as principais medidas defendidas estão o endurecimento no controle de importações, maior agilidade em processos antidumping, estímulos à produção nacional e a adoção de políticas alinhadas às praticadas por países com forte base industrial.
A agenda também inclui o avanço da política de estímulo à produção de borracha no Brasil, considerada estratégica para a sustentabilidade da cadeia.
Segundo a ANIP, o momento exige atenção não apenas pelo desempenho de curto prazo, mas pelos impactos estruturais que podem se desdobrar caso o cenário se mantenha.
A cadeia produtiva do setor emprega cerca de 35 mil pessoas diretamente e mais de 500 mil indiretamente. A continuidade da perda de competitividade pode afetar empregos, reduzir investimentos e acelerar um processo de desindustrialização.
Mais do que isso, o tema toca em um ponto sensível: a dependência de um insumo considerado estratégico para o país.
A combinação entre queda nas vendas, avanço das importações e redução da participação da indústria nacional coloca o setor de pneus em um momento decisivo.
De um lado, os números mostram uma retração consistente. De outro, cresce a articulação institucional em busca de medidas que restabeleçam condições de competição mais equilibradas.
O que está em jogo não é apenas o desempenho de um segmento industrial, mas a sustentabilidade de toda uma cadeia que conecta indústria, transporte, reforma de pneus e produção de borracha.
E, ao que tudo indica, essa discussão está apenas começando.
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