1 de outubro de 2026
Uma reportagem publicada nesta quinta-feira (24/09) pelo Canal Rural traz um dado que resume um dos principais desafios estruturais do agronegócio brasileiro: 65% de toda a carga do setor ainda é transportada por rodovia. O número chama atenção porque o Brasil não é exatamente carente de alternativa — o país conta com 30 mil quilômetros de malha ferroviária construída, mas apenas 12 mil quilômetros são efetivamente utilizados de forma economicamente viável. Na prática, mais de um terço da ferrovia já existente simplesmente não cumpre seu papel logístico.
Um descompasso entre produção e infraestrutura
O problema tem raiz na forma como a fronteira agrícola brasileira se expandiu nos últimos anos, especialmente em direção ao Centro-Oeste. A produção cresceu, a tecnologia avançou e a produtividade no campo subiu — mas a infraestrutura de transporte e armazenagem não acompanhou esse ritmo. Ferrovias, rodovias, armazéns e portos seguem formando uma rede considerada insuficiente diante do volume que o país produz hoje, o que empurra a maior parte do escoamento de volta para o caminhão, mesmo quando esse não é o modal mais eficiente para longas distâncias.
Crédito caro trava a solução de longo prazo
A reportagem também aponta outro obstáculo que ajuda a perpetuar essa dependência: o custo do crédito. Mais de 80% do financiamento usado hoje pelo setor logístico vem de capital privado, e juros elevados dificultam investimentos de longo prazo justamente no tipo de obra que resolveria o problema — expansão e modernização de ferrovia e hidrovia. É um ciclo que se autoalimenta: falta infraestrutura alternativa, então a rodovia segue sendo usada; e falta crédito barato para construir essa alternativa, então a rodovia continua sendo a única opção viável no curto prazo.
O que isso significa para o reformador
Esse cenário tem uma leitura direta para quem trabalha com pneu: se 65% da carga do agro depende de rodovia hoje, e a perspectiva é que essa dependência estrutural continue — já que resolver o gargalo ferroviário e hidroviário exige investimento de longuíssimo prazo —, a frota rodoviária de carga pesada segue sendo, por um bom tempo, o principal motor de desgaste de pneu no setor. Combinado com o cenário de frota mais envelhecida (reflexo da queda nas vendas de caminhões novos que já comentamos por aqui), esse quadro reforça a relevância da reforma como solução de custo viável para manter essa frota operando — já que trocar toda a frota não é opção rápida nem barata para a maioria das transportadoras ligadas ao agro.
Fonte: Canal Rural / Planeta Campo, 24 de setembro de 2026
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